sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Branca de Neve, com cravo e canela!

Que eu sou uma mulher de muitas fases todos sabem. De roupas a perfumes, eu cismo com cores, sabores, músicas... e cervejas! Há pouco tempo estava numa fase witbier. Comprando Hoergaaden no Pão de Açúcar e Wäls Witte no Delirium, fiquei quase um mês presa na cerveja branca de toque cítrico. Tudo começou com a perfeitíssima Blanche Neige, que é de quem falo hoje. Sim, já adiantei: ela é perfeita.

Naquele mesmo jantar harmonizado do “top sundae”, a provei pela primeira vez, e confesso, algumas vezes depois. (E de tão inebriada, fui além na linha e, audaciosa, um bolo de aniversário foi feito. Mas esta é outra história. Escrevo sobre isso logo mais.)

Estamos falando da Dieu du Ciel!. Assim mesmo, com exclamação. Micro-cervejaria canadense, de Quebec, de receitas originais e, repetindo a palavra, audaciosas.  A cervejaria artesanal foi inaugurada em 1998 por Jean-François Gravel, que acredita fortemente em cervejas que levam ao caminho da inovação e caráter. Com receitas interessantes, por exemplo a híbrida imperial Stout/Saison colaborativa com a Shiga Kougen no Japão, ou a sua Rosée d'hibiscus, uma cerveja rosa/laranja de trigo fermentada com flores de hibisco, vemos que a Dieu du Cieu! não têm medo, é ousada e interessante. Muito interessante. É considerada a cervejaria número 1 do Canadá e hoje a 13º melhor do mundo. Tudo porque dentre as mais de 12.000 cervejarias cadastradas no site RateBeer, a Dieu du Ciel! foi eleita entre as 15 melhores do mundo em 2013. Ainda, no top 50 de cervejas canadenses feito pelo mesmo site, aparece 11 vezes, ou seja, é um grande nome no mercado mundial de cervejas. Três de suas cervejas têm nota 100/100 no site – que é um dos portais de referência no mundo cervejeiro.

E eu comecei – a beber e escrever – com a perfeita e exótica Blanche Neige (Branca de Neve). Uma Imperial Witbier que, além das clássicas sementes de coentro e cascas de laranja características do estilo, têm adição de especiarias. É produzida apenas uma vez ao ano, para aquecer – e aquece, com seus 8,3% ABV – os meses de inverno canadense. Foge do típico, tirando espaço do tradicional sabor do trigo e cítrico abrindo espaço para uma explosão de... festa junina! Desculpem-me os cervejeiros clássicos, mas foi esta mesmo a emoção. O alto teor alcóolico e os aromas marcantes de cravo e canela me levaram direto para sentar ao lado da fogueira tomando algo muito melhor que quentão.
 De cor amarela forte e viva, com espuma boa e branquinha, a Blanche Neige domina o copo com seu aroma de cravo, canela, notas cítricas doces e um frutado intenso de pêssego. No sabor, malte e um “azedinho” proveniente das leveduras, então um sabor seco e levemente salgado – típico da witbier – contrasta com o aroma doce e fecha o paladar, com um levíssimo amargor e um quê picante que incita o próximo gole. Deixa um retrogosto doce, cravo e canela ainda dominando a cena mas com a sedução do álcool. Quem está com água na boca?

Cerveja de inverno, rótulo de inverno, tomada no meio de uma primavera que trouxe uma noite fria e perfeita para que a Blanche Neige entrasse no hall das minhas perfeitas. Ao lado de uma Belga, de uma Escocesa e de uma Brasileira, esta Canadense hoje se exibe pretensiosa e cheia de charme neste hall da fama da Catarina.


Santé!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Grand finale (russian style)

A vida segue, e a gente tenta tirar sempre o melhor de tudo isso. E no meio de uma mudança abrupta, um jantar entre amigos, que estão sempre por perto. Jantar queima de estoque, como chamamos, que marcou a última noite no apê. Resolvi celebrar – embora não fosse motivo de comemoração, mas de novo, tirar o melhor de tudo – e fazer um jantar de harmonização. Meio confuso, confesso, mas que no final das contas foi como sempre inesquecível.

Nesta noite, entre IPAs, Wheatbeer e Lagers, um grand-finale! E é sobre esta “receita” que falo hoje, a da sobremesa. No sábado anterior, indo para a aula, estava lendo a coluna da Cilene Saorin na Revista Mesa, um dos materiais que temos no curso de Sommelier, e ela falava da combinação Stout + sorvete de baunilha. E minha mente foi além... E então a Sandra, do Cevadaria, me sugeriu a Old Rasputin para esta harmonização.

Não sei quem acertou mais.

A Old Rasputin é uma Russian Imperial Stout, o estilo de cerveja mais intenso e encorpado. Aliás, coincidência ou não, segundo relatos históricos o estilo foi feito sob encomenda em meados do século 18 pela Rainha Catarina II da Rússia, que naquela época comprava barris de cerveja escura feitos em Londres. Era então uma Stout "anabolizada", com mais malte e maior teor alcoólico, exatamente para não congelar na viagem, já que tinha que suportar a congelante viagem pelo mar Báltico. Foi então honrosamente chamada de Russian Imperial Stout.

Na garrafa, de rótulo interessante - figura esquisita do barbudo fazendo um sinal sinistro – com uma imagem (e nome) baseada em Grigori Rasputin, um conselheiro paranormal da Rússia Czarista, considerado um bruxo ou "monge do mal" por muitos, que viveu no século 19 mais de 100 anos após o reinado de Catarina I. A Old Rasputin, produzida pela North Coast Brewing Company, cervejaria americana da Califórnia, é uma cerveja escura, preta, bem densa e opaca, com espuma de ótima qualidade e estabilidade. No aroma, notas de café e malte torrado e já podemos notar o álcool. De corpo denso e forte, no gosto sentimos o malte torrado, o amargor terroso (no gosto, retrogosto, aftertaste, o que quiserem chamar, afinal são 75 IBU) e uma pontinha de chocolate de final seco. É, afinal, uma cerveja equilibrada, de alta cabornatação e altíssimo aquecimento. Boa para fechar a noite, principalmente em dias frios. Sugere-se que estejam acompanhados, afinal são 9% de abv! ;)

Na taça, duas bolas de sorvete, uma dose do tal honroso líquido negro acima e, sobre a espuma formada que condensou, cobertura de chocolate Hersheys, que tem um sabor de chocolate mais intenso que as coberturas para sorvete (não é doce tipo candy sugar, é mais maltada e com sabor de “chocolate do padre”, ou cacau). Nota para o approach estético: 10!

No sabor, a quebra de paradigmas. O intenso amargor e secura da Old Rasputin eram atenuados pelo sorvete de baunilha e complementado pelo chocolate. O caldo formado pelo sorvete derretido e a cerveja na taça adicionava a baunilha à cerveja, trazendo um terceiro sabor, licoroso, ainda um tanto amargo mas com uma finalização da baunilha e um aroma de chocolate que invadia toda a taça. Intenso para os amigos não cervejeiros; e surpreendente mesmo para os que sabem que eu sempre tenho algo na manga nos jantares que marco com a querida “equipe”. E, confesso, surpreendente até para mim, que já havia harmonizado tantas vezes a combinação Stout + sobremesa, mas que esta ficou incrivelmente (e emocionalmente) inesquecível.

Perfeita para encerrar um ciclo e começar um ainda mais intenso!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Um ano depois, perfeita.

Ultimamente estudar cerveja tem sido muito mais o foco do que escrever sobre. E não é que tenha abandonado o propósito da busca, mas é que degustar uma cerveja se tornou muito mais abrangente. A cada dia mais apaixonada e inspirada por tudo isso. Estou devorando o livro “A mesa do mestre cervejeiro", do Garrett Oliver – entre outros dois livros que alimentam a alma – e confesso que a vida tá bagunçada, bagunçada, então eu acabo tendo tanto tempo livre quanto arranjo coisas randômicas pra fazer.

Então eis que noto no calendário: Austrália. Esta semana fez exatamente um ano do retorno de uma experiência de carga emocional pesada, talvez até então o maior divisor de águas da vida. Fui pra não voltar, e em 6 meses a realidade me chamou de volta. Muita coisa na vida mudou, MUITA. Muitas ainda não se encaixaram, mas posso dizer que foi lá que eu decidi estudar cerveja pra valer, e voltei com esta pulga atrás da orelha. Hoje estou na metade do caminho para a primeira formação, e cada vez mais em busca de outros cursos e inspiradas pelos caminhos a seguir. Talvez tenha sido este o legado que a Austrália deixou, quem sabe...

E duas “aussies” me cruzaram o caminho recentemente. Uma deliberadamente na prateleira do Empório Santa Maria, que chamou pra matar a saudade do que foi bom; e outra em aula, que inclusive usei numa degustação entre amigos há poucos dias. Ambas da Coopers, maior cervejaria local da Austrália, que fica em Adelaide e é uma empresa familiar constituída em 1862, iniciada por Thomas Cooper, que na realidade queria mesmo era produzir uma espécie de tônico para sua esposa doente, e acabou por produzir cerveja bem quista. Feliz acidente de percurso! Conhecida por fazer uma variedade de cervejas especiais, a mais famosa das quais são sua Pale Ale e Sparkling Ale (sensacionais), e todas produzidas somente com água, malte, lúpulo e levedura (amável Reinheitsgebot, a Lei de Pureza Alemã!). Suas cervejas passam por uma segunda fermentação dentro da garrafa, que lhes confere maior frescor e validade mais longa. A cervejaria vendeu 69,7 milhões de litros de cerveja no último ano, o que pra população da Austrália é cerveja per capita a rodo... 

Então, na ordem de bebericagem, falemos primeiro da Coopers Best Extra Stout. Escura como Stout, encorpada como Extra Stout. Cerveja aromática, com notas do malte torrado e ainda café e chocolate amargo. Uma espuma densa e no gosto o amargor equilibrado com o doce do malte caramelizado, mas com a boca invadida pelo sabor do malte torrado, café e nuts. Final forte e amargo, mas feliz. Talvez mais feliz se tivesse acompanhado aquelas minhas adoradas panquecas doces, fofinhas, carregadas de maple syrup e sorvete de baunilha – cuja ideia me veio à cabeça e não saiu até o dia seguinte, mas já não tinha mais a Coopers pra harmonizar, foi “a seco”. Fica pra próxima!

Pouco tempo depois, fui apresentada em aula à Coopers Vintage Ale, uma Strong Ale, estilo inglês de Ale, safrada e produzida com malte especial, maturada em barris de carvalho por 5 anos. Na degustação, provei as safras de 2012 (presente!) e 2013, e sim, dá pra notar a diferença sutil entre as safras – claro, se as tomarmos juntas. O aroma amadeirado até me deixou confusa com o estilo, um forte aroma de álcool, que lembra rum, whisky. Notas de frutas secas, presença sutil do lúpulo que dá porém um amargor notável e sensacional (depois li que usa-se nela o lúpulo Saaz, uma variedade que dá um amargor com notas florais, e que por acaso ultimamente as minhas favoritas cervejas são feitas com Saaz ou com ele na mistura. Coincidência?). Como no aroma, previa que o ABV não era baixo, mas me surpreendeu com seus 7,5%. No sabor, o equilíbrio entre o amadeirado e frutado, entre o doce e amargo. Corpo médio, cor âmbar estonteante que a fez entrar no hall das favoritas e, porque não dizer, perfeita para encerrar um ciclo.

Austrália deixou frutos. Ideias, aprendizados, e, agora, cervejas, para sempre na memória. Deixou experiências que levaram um ano para maturar e enriquecer, exatamente como a Vintage.

G’day!

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sobre Mulheres, Cervejas e Copas num dos gols da Alemanha

Eu vou contra o homem que acha que mulher não entende de cerveja, mas se este homem acha que mulher não entende de futebol... é, ele estaria certo no meu caso. Eu até sei o que é impedimento (juro!), mas estou longe de poder manter uma conversa agradável por mais de 1 minuto. No caso da seleção Brasileira até consigo citar metade da escalação e olhe lá. Por isso foco na cerveja!

E se tem algo que a Alemanha faz bem - além de montar uma seleção homogênea, focada, equilibrada, com controle dos passes e com jogadores mais experientes, que já participaram de outras copas e que.... ops, me empolguei! - é cerveja. Historicamente. E, coincidência ou não, grande parte das cervejas degustadas sábado foram alemãs. Vale explicar o "sábado"... Voltei às aulas e me matriculei no curso de Sommelier de Cervejas do Senac. Ainda MUITO a aprender, mas o coração já bate feliz em saber cada sábado um pouquinho mais!

E, guiada pela brilhantíssima Cilene Saorin, degustamos 6 rótulos, um nacional e o restante alemão. Coincidência? "I don't think so"... Ainda, um dia antes da fatídica partida de futebol fui presenteada com mais um excelente rótulo alemão, que já havia tomado anteriormente, quando ganhei o rótulo de amigo secreto e fiz o post pra entrar feliz em 2012, a Münchner Kellerbier Anno 1412.

Dentre todas estas alemãs (seis, quase sete) falemos da Ustersbacher Dunkel Weisse. Rótulo da cervejaria Brauarei Ustersbach, localizada em Usterbach, ao sul da Alemanha desde meados do século 17, esta Dunkel Weisse (ou dunkelweizen) - cerveja escura com trigo - de cor castanha, corpo turvo e boa espuma, tem no seu aroma notas de banana, caramelo e cravo. No sabor, bom equilíbrio, notando-se o salgado característico do trigo, equilibrando com a acidez e doçura, do caramelo e banana. Pouco amargor, deixa um gosto doce na boca, diferente do futebol que encaramos.



Excelência na cerveja, excelência no futebol, a Alemanha pode ter deixado um gostinho amargo além do lúpulo para muitos brasileiros, mas para mim foi especialmente perfeita!

Ein Prosit. Sete vezes...

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Pra matar as saudades

É sabido que eu sou apaixonada pela Inglaterra. Que tenho adesivos pela casa aclamando a rainha, que tenho preferência pelo sotaque britânico, que fiz amigos pra vida do outro lado do oceano e, principalmente, que as cervejas de lá estão no meu hall de favoritas.

Não por acaso ganhei este rótulo. E foi dado, esticando o braço entregando a sacolinha com as palavras: “Ó, pra vc matar a saudade da sua terra favorita”.

Thoroughbred. De nome tão impronunciável quanto qualquer cidade inglesa, esta cerveja - Hambleton Ales Thoroughbred, nome completo – é feita pela cervejaria Nick Stafford's Hambleton Ales, que fica depois de York, interior ao norte da Inglaterra. É a cervejaria oficial das redondezas, desde 1991, criada por Nick Stafford e sua mulher. São 15 pessoas no total trabalhando na produção da cerveja, prova que sim, micro-cervejaria pode exportar e dar super certo! A cervejaria é conhecida por ter sido a primeira britânica a produzir cerveja sem glúten (GFA, sigla para glúten-free Ale), em 2005, uma whitbier que agradou os 100 mil celíacos ingleses. Logo depois lançou uma versão lager (GFL, glúten-free Lager)

Sobre a Thoroughbred (difícil até para digitar), é uma Pale Ale tipicamente inglesa, com uma espuma leve e corpo marrom acobreado. No sabor, amarga na medida, pale ale suave e refrescante, maltada e frutada no aroma e sabor com um toque cítrico.  Com 5% de ABV, combina bem o sabor e o teor alcoólico, não decepciona de maneira alguma.  Utiliza malte e lúpulo local, que traz originalidade à cerveja.



Cerveja mais que bem vinda, que estreou a parede de rótulos de cervejas recém-instalada, fundo perfeito para outras tantas aspirantes à perfeita!


Cheers – com sotaque britânico de Yorkshire!

domingo, 30 de março de 2014

Catarina no país das Maravilhas (Brooklin Brewery)

Cada viagem, uma cervejaria local.

Esse é o lema de cada viagem, programada ou não. E às vezes são as viagem não programadas que trazem os momentos mais felizes.

O fato é que fui comprada. Num relacionamento onde um ama e o outro odeia carnaval, o meio termo às vezes surpreende. E eu troquei 4 dias de samba, suor e cerveja por 4 dias de neve, frio e óbvio, cerveja. Fui “avisada”, num ticket quase que surpresa, na quinta-feira antes do carnaval, que iríamos para Nova York. Mala de botas, cachecóis e casacos pronta, embarcamos no melhoooor estilo American Airlines e chegamos lá, num sutil -6C. A programação da viagem, feita nas 24 horas que antecederam a decolagem, veio uma luz: Eu.Vou.Visitar.A.Fábrica.Da.Brooklin.

Meu Deus do céu! Então a ansiedade bateu. Já visitei muitas cervejarias, em muitos lugares, mas esta... Não sei dizer se era por ser a Brooklin, que já tinha tomado tantas vezes, por não ser tão comercial, ou se era porque era NY. Apostas? Juntemos os dois e lá estava eu, em pleno domingo de carnaval, de casaco, cachecol, bota, luva e gorro, botando minha câmera pra tirar fotos cinzas, verdes e douradas.

A Brooklin Brewery é carregada de uma história sonho de consumo de qualquer designer. Cervejaria fundada em 1988 por dois amigos que abandonaram seus empregos pra viver de cerveja (sonho), batizaram a marca após conseguirem alugar um galpão de distribuição nos “arredores” de Nova York a cerca de U$1 o metro quadrado, já que a cidade estava em crise e o bairro fadado à derrota. A então Brooklin Brewery precisava de uma logomarca. O amigo e designer gráfico Milton Glaser, mais conhecido como o criador do logotipo para a campanha “Eu amo Nova York”, foi convidado para criar o logotipo da empresa e sua identidade. Sem muita grana e com uma excelente visão de “ninguém fecha um bom negócio sem uma ou duas cervejas na cabeça”, os sócios convenceram o designer amigo a fazer a marca por uma humilde participação nas vendas das cervejas. Hoje a Brooklin distribui para cerca de 25 estados e 20 países. Bom negócio, eu diria...

Cervejaria crescendo, o comércio local impediu que a Brooklin saísse do bairro (precisavam de mais estrutura para engarrafamento e distribuição)  e lhe permitiu realizar uma expansão 6,5 milhões dólares da cervejaria em 2009 – com o crescimento da Brooklin, todos os comerciantes do bairro tiveram medo que o bairro do Brooklin voltasse a ser o mesmo distrito industrial abandonado dos anos 80 e investiram neste crescimento. Outro bom negócio, eu diria.

Após esta expansão, hoje a Brooklin é a cervejaria artesanal que mais exporta nos EUA. E hoje, visitar o bairro do Brooklyn foge totalmente da rota turística de Manhattan, mas vale a pena. É lá onde os alternativos de NY vivem, e onde antigamente o bairro era alvo de piadas dos nova-iorquinos e reino dominado pela máfia, e é “graças” a cervejaria (entre-aspas, claro) que o bairro hoje chama a atenção cultural e gastronômica de Nova York.

Aqui já falamos dela logo no começo da delícia de IPA favorita do Chefe Ali e sobre a Sorachi Ale (que virou pôster lá em casa). Hoje vamos falar de quem não é exportada, logo especialmente consumida dentro da cervejaria: A Brooklin Silver Anniversary Lager. Era uma das especiais do dia (uma outra veio na mala pra depois), comemorando 25 anos da cervejaria e o rótulo é feito por artistas locais, celebrando também as bodas de prata do renascimento cultural do Brooklin. A cerveja é refermentada na própria garrafa, e seu sabor se preserva o mesmo hoje ou mesmo em anos. Inspirada nas cervejas do século 19, é uma versão doppelbock da Brooklyn Lager original de 1988. Com aroma doce e frutado, exala uma mistura de caramelo do malte torrado e um toque de especiarias – o que eu particularmente já esperava, vendo o tom nebuloso e vermelho-alaranjado do corpo, bem colocado na taça Brooklin que veio pra casa. Uma espuma (creeeme) bege clara, não muito persistente. Forte mesmo para aquele inverno, doce pelo malte frutado mas amarga na medida denotando presença do lúpulo, com final prolongado seco, com um retrogosto amendoado.

Li algumas resenhas locais sobre esta edição e algumas palavras como “surpreendente”, “maravilhosa” e “nobre” me ajudaram muito no julgamento de PERFEITA da viagem. Achei que pudesse ser um tanto parcial por toda a aura da viagem, pelo encanto de estar de volta à Big Apple ou qualquer sentimento de êxtase que trouxesse mais brilho do que o rótulo merecia. Mas não, estava sendo realista mesmo.

Tão perfeita quanto Nova York, sob frio, neve e passeios congelantes pode ser. Pra quem gosta, sempre perfeita.

Fábrica da Brooklin - mais fotos da visita no facebook!
Cheers!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Cerveja quente - no bom sentido!

E quem é vivo sempre aparece...

É verão. E o verão mais quente dos últimos 70 anos. Conversa de elevador à parte, conceitualmente o verão é o melhor amigo da cerveja  - que embora tenha seu berço nas terras frias, nós brasileiros e cervejeiros por natureza adotamos a máxima de que o verão pede uma boa loira gelada.

E na minha ainda habitada prateleira de cervejas patrocinadas, noto um rótulo enviado pela Clubeer perfeito para minha sensação térmica: a Labareda, da Coruja.

Eu sei, eu sei... a noite era para algo mais refrescante nos seus 30 e tantos graus, algo cítrico talvez, mas a cerveja com pimenta me desafiou. Uma cerveja fora-de-série, a segunda da Coruja, que é a nossa brasileira das invenções (já falamos sobre a Coruja aqui, nacional do sul com a tal cerveja viva, lembram?) e fez esta apimentada em parceria com o músico Wander Wildner - presente no rótulo inclusive. Ainda falando de rótulo, nada refrescante, pelo contrário, quente. Mas que diz refrescar, em suas palavras, "refresca a alma, o corpo e a mente". Uma cerveja curiosa e ousada. 

Uma larger que surgiu de uma Keller Bier, cerveja de porão, esfumaçada, com o acréscimo do fino malte Vienna e um toque de pimenta, o que torna a Labareda uma autêntica Rock Bier. Com retrogosto picante na medida, tem sua cor âmbar e espuma bege levíssima, onde nota-se o malte, um caramelo meio defumado e especiarias. Muito pouco amarga, que bem gelada desceu e sim... refrescou! Com seus 6.7% de ABV, não apimenta tanto a alma quanto a boca.

Um leve queimar nos lábios, acalentados pelo ventilador na cabeceira da cama e uma vontade absurda de... ar-condicionado!




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Catarina no país das maravilhas (Carlton & United Breweries)

Parece que foi ontem que escrevi por aqui pela última vez... então percebo que na realidade faz meses. Da série coisas da vida que pareciam mais fáceis na minha cabeça, manter o blog lá do outro lado mundo não deu muito certo. Outra coisa que parecia mais fácil era voltar a morar fora. A saudade desta vez bateu muito forte e não resisti, voltei para o Brasil. Na bagagem, mais experiência, alguns calos e boas cervejas.

Mas a Austrália deixou boas memórias. E uma das melhores foi a visita à Carlton Brewery, maior e mais famosa cervejaria da Austrália. Por um momento pensei em largar tudo e fazer um curso de Brewing nos arredores de Melbourne, mas a razão falou mais alto. Por isso a estada em Melbourne durou somente 4 dias, intensos e inesquecíveis.

A Carlton & United Breweries é uma cervejaria australiana fundada em 1850, sua fábrica fica próximo ao gostoso bairro de Richmond, em Melbourne, Victoria. É a maior cervejaria, produzindo muitas das bebidas de maior sucesso da Austrália, incluindo a best-seller Victoria Bitter, que falo mais abaixo. Outras de suas obras-primas são a conhecidas linhagem das Carlton: Draught, Dry, Cold, Midstrengh e Black, Melbourne Bitter, Crown Lager, Pure Blonde, Fosters e a sidra Strongbow, famosa por ali!

Pé ante pé, vamos falar destas famosas perfeitinhas "aussies", que mais que uma cerveja perfeita, me proporcionaram um dia perfeito. Pra começar que a visita foi feita bem à Brasileira, de última hora. Isso porque a visita teria que ser agora, tipo ao meio dia, e teria quinze minutos para chegar lá. No meu cronograma de viagem a Carlton era só no último dia, mas quando liguei pra agendar descobri que estaria fechada. A guia, típica australiana simpática a amável (sério, adoro!) prometeu que o grupo me esperaria chegar. Bolsa, câmera, celular, café e táxi!!! Ao cruzar o portão, me chamaram pelo nome e me guiaram ao grupo. "Are you the brazilian who write about us?"
"Y-yeah", disse, um misto de orgulho e vergonha por ser mais uma brasileira atrasada...


Da linha Carlton, comecemos pela Draught, a mais tradicional dos australianos bêbados. Uma Lager suave, de corpo dourado e sabor encorpado, marcado pelo lúpulo, que lhe dá um final ligeiramente seco. A Carlton Draught é a mais conhecida nos "barbies", os assim chamados churrascos aussies.

A Carlton Dry é assim chamada por ter seu açúcar removido no processo de fermentação num período de tempo mais prolongado, e na matemática cervejeira, menos açúcar é igual a menos carboidratos. Além disso, seu teor alcoólico também é reduzido, 4.2%.

Carlton Cold é a Antarticta Sub-zero australiana. Sem mais. 

A Carlton Mid é feita através de uma combinação de 4 diferentes tipos de lúpulo, que a deixa personalizada, além de um sabor maltado mais característico que traz um equilíbrio entre o amargor e a leveza. Leve aliás também no ABV, de 3.5%. 

A Carlton Black é a Ale da família, num sabor frutado que combina com o malte torrado em tambores especiais. Esta Ale de tons rubis me lembra a paixão de Melbourne por café (lá eu tomei os melhores cafés da minha vida), já que em seu aroma podemos até sentir um tradicional Mocha aussie. Favorita do time!


Já a Victoria Bitter, ou VB, é umas das cervejas mais vendidas na Austrália. Esta cerveja inclusive me chama a atenção por ter o mesmo padrão de servir dos Brasileiros: estupidamente gelada, o que não vemos pelo resto do mundo. Talvez o clima da Austrália ajude um pouco nisso... A VB é intensa, forte, de aroma frutado e sabor amargo do lúpulo no final, balanceado pelo malte doce e suave. Na realidade bem menos amarga que o nome traz.

A Melbourne Bitter foi minha primeira cerveja na cidade, aliás duas. Foi me dada por um amigo que duvidou do meu paladar por Bitters. Os "Melbournianos" são muito regionalistas, logo têm a cerveja que leva o nome da cidade. Mais robusta, intensa e amarga, de corpo mais escuro e espuma bege, manda muito bem!

Crown Lager, conhecida intimamente como "Crownie", é a cerveja da turma que tem uma história complicada. Foi originalmente produzida em 1919 como "Foster Crown Lager ", inicialmente disponível apenas para as personalidades britânicas que visitaram a Austrália. Durante a primeira visita real da rainha Elizabeth II para a Austrália em 1954, Carlton & United Breweries fez o lançamento oficial nesta ocasião como então Crown Lager. Só que essa história até hoje está em discussão, já que dizem que a Foster Crown Lager já era fabricada antes de 1919 e que era amplamente disponível para o público antes de 1954. Enfim... Sua garrafa tem forma exclusiva com seu logotipo cravado, e está no mercado como uma cerveja premium. Como tal, formou uma associação com a Golf Austrália para criar o Crown Lager Social Golf Club. Chique, quem joga golfe é chique. No sabor, só difere das outras lager comerciais por se um pouco mais forte. Sim, Original.

Pure Blonde, cerveja mais leve, baixo amargor, tem 70% menos carboidratos que as comuns e com uma espuma bem rarefeita. Achei normal demais, nada que me fizesse falar que é uma puta cerveja, mas é gostosa, não é sem gosto como as lights por aí. Na realidade, mais uma das lagers da família... dá pra ver de longe que não é minha favorita né!?

Fosters, a minha primeira australiana da vida, que vendia no pub em Londres lá no passado, é a lager comercial, douradinha, leve, gelada e cristalina. Equilibrada no amargor, espuma branca, pode dizer que desce redonda? Sua única e principal característica é que é feita com um levedo diferenciado das outras. É a aussie mais vendida no mundo.

A cervejaria ainda produz outras cervejas do mundo, como uma "filial". O ponto alto da visita foi subir até o topo da produção, numa temperatura interna de mais de 50 graus. A vista de cima dos grandes barris de fermentação é sensacional. Deu até vontade de ficar por ali se não fosse o próximo passo: a degustação.


Depois, coisa óbvia, compra de souvenirs. Porém este tempo na Austrália fechou um pouco minha mão, embora tenha saído de lá com o melhor dos souvenirs de todas as visitas à fabricas da vida:



Assim, o sonho australiano chega ao fim, a vida no Brasil volta aos poucos ao normal. Não foi fácil viver tão longe, largar tanta coisa. Desistir de tudo foi ainda mais difícil, mas puder resgatar o que tenho de melhor da vida: o sorriso do rosto! E, ainda, descobrir algo que, no fim, eu já sabia: A cerveja perfeita não mora na Austrália!

Cheers. MATE!

terça-feira, 2 de julho de 2013

Pequenas Criações Australianas

Há quase quatro meses vivendo uma vida de australiana, começo a me sentir como uma. Por isso, conforme prometido, vamos falar de uma cerveja nata da Austrália Ocidental, ou WA, ou Perth...

Fui selecionada para uma entrevista para um "tasting team" de cervejas locais. Mandei meu currículo cervejeiro, contei minha história e hoje foi o dia da entrevista. Super informal, o assunto cerveja fluiu como sempre. Nada é melhor do que falar de cerveja. Falando de favoritas, me perguntaram das favoritas australianas, e me lembrei da nossa primeira australiana, a James Squire, que coincidentemente foi provada ainda no Brasil há algum tempo e fiz um post todo especial sobre ela, lembram? Ah as coincidências da vida!

Eis que, ainda falando de favoritas, nos vimos preferindo whitebeers, amando Hoeggarden e como um doce souvenir da entrevista, fui apresentada à White Rabbit, uma whitebeer da cervejaria Little Creatures, local de Perth. Melhor entrevista da vida: do lado de casa, clima informal e ainda ganhei uma cerveja. Se nada der certo, já saí no lucro! E como o perfil do trabalho é exatamente provar cervejar, já comecei agora...

A Little Creatures nasceu em 2000, fruto da paixão por cerveja de alguns amigos e uma ideia de uma cervejaria local que fizesse a mehor receita de pale ale. Com sede em Fremantle, bairro histórico de Perth, foi construída com o aval e participação de toda a vizinhança, e é um orgulho para o povo local. Hoje além a fábrica, conta com um enorme restaurante de onde as cervejas saem direto dos barris (gigantes) e um clima de pier-praia-marina no ar, já que a cevejaria fica muito próximo ao porto e no desemboque do rio Swan no mar. Uma delícia de lugar! 

A White Rabbit é de fato muito parecida com a Horggarden citada acima, mas sem o mesmo amargor (15 IBU), o que faz desta uma cerveja uma mais leve, doce e, podemos dizer, redonda. Cerveja de ABV leve (4.5%), longe de parecer com as whitebeers brasileiras, que comumente vem com traços de banana, esta mantem os traços de laranja e coentro, dando um toque herbal, cítrico e diferente no seu retrogosto, que conta ainda com berries. Uma bela exemplar da tradicional cerveja  branca belga, com um corpo amarelo opaco, bem sedimentada, vale uma beeeela chacoalhada no fundo da garrafa pra fazer valer todo o material. Uma cerveja refrescante para um dia ensolarado de vinte e poucos graus no inverno de Perth. Assim disseram os monges belgas que deram a receita - segundo seus criadores.


Ainda, não posso deixar de lado um detalhe, um pequeno detalhe, que deu a graça na garrafa de rótulo simplista, sem muitas informações mas com a graça necessária: gravado no vidro das garrafas de suas cervejas, um pequeno anjo, um cupido, que já tinha visto em algum lugar antes... ah boas memórias!!!

Cheers mate!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Waka waka

Nunca antes na história deste blog ficamos tanto tempo off. Peço sinceras desculpas e prometo - novamente - voltar à ativa como antes. Quem vive no exterior sabe como a fase de adaptação é complexa e demorada, e me tornar aussie tem sido quase impossível!

Mas antes que a adaptação se conclua, não falo de australianas. Como ainda tô no meio do caminho, vou contar de uma cerveja do meio do caminho.

Conexão na África do Sul e o que eu quero? Amarula! Por um tempinho não pensei em cerveja, afinal não é muito frequentemente que podemos tomar Amarula em sua terra natal. O doce licor de Marula, uma fruta africana, misturado em creme de leite e com PASMEM 17% de teor alcoólico. Amo Amarula desde os tempos de adolescente, quando achava que dava pra fazer amarula caseira com vodca e Nescau.

Mas eis que no Duty Free, quase apagada pelos mil destaques de Amarula na área de bebidas, eu encontro uma geladeira. Com cerveja gelada. Tinha mais duas horas de conexão e nem pensei duas vezes. Foi pro caixa!

Quem?
Darling Brew, Slow Beer.

Pesquisei e descobri que é uma cervejaria africana fundada em meados de 2007 em Cape Town, por viajantes que estavam pela África sem destino. Uma micro-cervejaria cujo primeiro rótulo foi este provado, e Slow beer é o conceito que representa a cervejaria, slow fermentation contra produção de massa. A inspiração da cervejaria para os rótulos é a tartaruga geométrica, uma das mais raras do mundo, encontradas somente na África mas que, recentemente, um grande incêndio florestal reduziu drasticamente a sua população e a deixou em extinção. Tem cores fortes e manchas no casco que parecem feitas geometricamente.

A Darling é uma lager leve, com uma rica cor laranja-dourada. Refrescante, com um sabor forte do lúpulo e finaliza com um amargor suave. Tem aroma frutado, com toque leve de banana, espuma clara e com muita carbonatação. Muito parecida com nossas lagers que matam a sede nos dias de verão, no meu caso matou a sede de curiosidade e, principalmente, ansiedade!

Waka waka (do it!)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Czechvar agora é chopp!


Texto escrito pela Elisângela  ou Eli, que nos representou no evento. Ela é uma recém apaixonada por cerveja – na realidade por qualquer tipo de bebida, mas que se aproximou do mundo da cerveja graças às boas influências. Valeu Eli!

A gente já falou aqui sobre a Czechvar e sobre como uma cerveja mesmo amarga pode ser leve e refrescante. Então a Uniland nos convidou para um evento especial no Consulado da Republica Tcheca: o lançamento no Brasil da Czechvar em barril!

A versão chopp da Czechvar traz o amargor residual persistente do lúpulo Saaz e o agradável aroma de malte tcheco. De sabor leve, talvez resultado da maçã em sua fermentação, é uma bebida muito refrescante que combina muito bem com o clima tropical do Brasil. Com a proposta de agradar os paladares dos consumidores mais exigentes, a Czechvar harmoniza muito bem com petiscos, refeições leves como saladas, peixes, grelhados ou queijos frescos.

Eu acrescentaria uma pitada de pimenta para realçar a refrescância natural do chopp, que deve ser consumido com um denso colarinho e estupidamente gelado.


Quem quiser conferir chopes Czechvar, vai no The Ale House Pub e Empório Alto dos Pinheiros em São Paulo, Grannies Pub em Campinas e Empório Biergarten em Ribeirão Preto.

Na zdraví!